O Delfim de José Cardoso Pires e sua transposição cinematografica por Fernando Lopes: dois modos de decifrar a Historia
Résumé
A obra de José Cardoso Pires apresenta um fresco, constituído por vários romances, sobre a sociedade portuguesa do século XX, na qual ocupa um lugar ímpar o seu romance O Delfim (1968) por operar um corte radical com o discurso do neorrealismo, ganhando em adensamento do discurso, capacidade de questionamento, dimensão ideológica e simbólica. O autor-narrador, um caçador-escritor, procura numa aldeia portuguesa típica e imaginária as origens de uma família poderosa, verdadeira fábula moderna da sociedade patriarcal no estertor da sua agonia. Ao deslocar a busca da ‘verdade’ para um puzzle em permanente construção, o leitor é convidado a entrar também na caçada de busca de resposta ao mistério do desaparecimento do “Delfim”, após a morte da sua mulher. A fragmentação do tempo convencional e da estrutura narrativa, a coexistência de várias versões da história, as sobreposições e simultaneidade de visões, os desdobramentos, a contaminação de registos, levanta o problema da adaptação desta obra ao cinema pelo cineasta Fernando Lopes. Dando continuidade, porém, à transposição de Uma Abelha na Chuva (1971) de Carlos de Oliveira, o realizador opta de novo por uma reescrita fílmica do romance, reduzindo-o ao osso, na qual prevalece o poder de sugestão, através da condensação metafórica de imagens que trabalham o real e o imaginário, de modo a dar a ver a desagregação de uma família, de uma classe social, de um país, de mitos, de fantasmas, de águas paradas e pantanosas, enquanto no espaço asfixiante se levanta uma brisa que anuncia a mudança do tempo suspenso. Centramos este estudo no modo como o filme de Fernando Lopes parte destes aspetos do romance, de forma a que o espetador seja, não só um mero consumidor de imagens, mas também um leitor - caçador, decifrador de histórias e da História.
Domaines
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